O Yoga não é algo que nós fazemos,mas algo que somos e nos tornamos." Georg Feuerstein

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

ESCULPINDO A SUA REALIDADE

Eu vi o anjo no mármore e esculpi até libertá-lo.
Michelangelomichelangelo

Por Ricardo Mallet

Ter uma mente aberta e atrair novas oportunidades. Despertar a capacidade de sonhar e desafiar a monocórdia mesmice. Ver a vida sob uma nova perspectiva e explorar caminhos criativos para a realização pessoal e profissional. Desejos que atormentam a consciência de bilhões de pessoas que se sentem oprimidas pela rotina monolítica que carregam sobre os ombros, sem perspectivas ou motivação. O peso é aterrador e muito real, disso não há dúvidas. Mas será que a dureza e o peso da rotina estão “lá fora” ou são criados inicialmente em nossa cabeça?
Tudo começa com a pressa em assumir uma opinião, um conceito da realidade. Chamamos isso de preconceito. E o preconceito cria as meias-verdades, não apenas separando as pessoas umas das outras, mas também suas visões das oportunidades. Apressados em assumir uma opinião frente aos desafios da rotina, serão as meias-verdades que nos dividirão entre otimistas e pessimistas, um reducionismo limitante.
Fechando um olho para as dificuldades, um otimista vê apenas meia-verdade. Acaba prostrando-se; esperando a sorte chegar. E a sorte nunca chega. Já o pessimista fecha um olho para as possibilidades e, com sua meia-verdade, resigna-se esperando a morte chegar. E a morte sempre chega. Mas uma visão profunda da realidade só pode ser obtida com um olhar íntegro, tendo em perspectiva tanto as dificuldades quanto as possibilidades. Chamo isso de “visão sábia” e é essa visão que revela as maiores oportunidades de realização pessoal. Assim, somos levados à percepção de uma realidade mais profunda, que está além do olhar apressado das massas.
A realidade é sempre mais rica do que nossa mente consegue perceber. A ciência atual nos surpreende ao comprovar que nossas rotinas mentais selecionam e descartam milhões de informações a cada segundo. Então, no final das contas, serão as rotinas da mente, e não a realidade, que limitarão a nossa vida.
No ano 1501, Michelangelo aceitou a nobre tarefa de esculpir a imagem do Rei David, o herói bíblico, em um colossal bloco de mármore bruto. Ao considerar as inúmeras imperfeições da rocha, muitos julgaram a empreitada humanamente impossível. Michelangelo, porém, decidiu ousar um olhar diferente sobre o problema. Sem pressa, focalizou sua visão sobre o bloco de mármore e suas imperfeições. Com um olhar atento, profundo e criativo, percebeu que naquele monólito jazia o herói aprisionado, clamando por liberdade. Agora, seria apenas uma questão de tempo e muita determinação.
O artista investiu três anos de trabalho esculpindo a sua realidade até que sua visão pudesse ser contemplada pelos demais. Curiosamente, a escultura de David retrata o herói no momento anterior à batalha, quando está se preparando para enfrentar uma força que todos julgavam ser impossível de derrotar. Uma semelhança histórica bastante sugestiva.
Se Michelangelo tivesse optado pela visão preconceituosa comum aos demais, jamais teria oferecido ao mundo uma das obras mais importantes do Renascimento. O preconceito é inimigo mortal da criatividade e da oportunidade. Incuta na mente de um gênio o preconceito e você o estará condenando à medíocre e limitada visão superficial da realidade.
Mas não é necessário ser nenhum gênio para esculpir a própria realidade. Manter-se disposto a olhar com atenção através das aparências e a considerar diferentes opiniões já é um bom começo. Talvez bem aí, sobre seus ombros, esteja a matéria prima que dará origem à grande obra da sua vida. Tudo dependerá de sua vontade em encarar a realidade com uma visão sábia e muita determinação para esculpir as oportunidades que surgirão na sua rotina.